Há frases que incomodam precisamente porque parecem tocar num ponto que preferíamos não discutir.
Numa publicação recente relacionada com um protesto contra a exploração de lítio no Barroso, alguém comparou, em tom irónico, a lotação do estádio de futebol em Chaves com o milhar de pessoas que saem à rua contra as minas. A comparação é justa ou injusta? Talvez a pergunta que realmente importa seja outra: porque conseguimos mobilizar milhares para celebrar futebol, mas temos tanta dificuldade em reunir multidões quando está em causa o futuro do território onde vivemos?
O Que o Futebol Tem Que as Causas Sociais Não Têm
O futebol tem uma capacidade extraordinária de criar comunidade. Não é preciso explicar durante horas porque estamos ali, nem conhecer regulamentos, estudos ambientais ou processos administrativos. Veste-se uma camisola com as cores do clube e, durante 90 minutos, milhares de pessoas passam a falar a mesma linguagem. Há identidade imediata, emoção partilhada, um objetivo perfeitamente compreensível.
A defesa de um território é outra realidade. Não se resolve em 90 minutos, não tem vitória imediata, e o que está em causa é muitas vezes distante e complexo. Uma mina não é apenas uma mina: é invasão de território, é poluição de cursos de água, é interferência na agricultura, na paisagem e na biodiversidade. E é precisamente por ser tudo isto ao mesmo tempo que se torna tão difícil transformar essa preocupação numa mobilização simples e imediata.
Será Que Mil Pessoas São Poucas?
Talvez esta seja a pergunta mais importante. Quando olhamos para a fotografia de uma manifestação com algumas centenas de pessoas, é fácil concluir que são poucas, mas será que devemos olhar para o número absoluto ou para aquilo que ele representa?
Numa região de baixa densidade populacional, conseguir juntar centenas ou mil pessoas num protesto não é necessariamente sinal de fraqueza. Pode significar, pelo contrário, que existe uma parte significativa da população disposta a sair de casa, deslocar-se e colocar o corpo num lugar para dizer publicamente aquilo em que acredita.
Convém não esquecer, também, todos os que participam de outras formas: quem assina uma petição, participa numa consulta pública, escreve às entidades responsáveis, acompanha processos judiciais ou simplesmente partilha uma publicação para que mais gente saiba o que está a acontecer. A participação cívica não cabe toda numa fotografia de manifestação.
A Diferença Entre Manifestar e Participar
As redes sociais deram-nos uma capacidade extraordinária de expressão. Hoje, alguém a centenas de quilómetros do Barroso pode, em segundos, comentar, partilhar ou reagir "Não às minas!" - e isso tem valor. No entanto, existe uma diferença entre manifestar uma opinião e participar numa ação. Uma reação no ecrã demora um segundo; uma manifestação exige viagem, tempo, esforço, desconforto e, sobretudo, disponibilidade para estar presente.
Talvez esteja aqui uma das grandes questões do nosso tempo: será que as redes sociais nos tornaram mais participativos, ou apenas nos deram formas mais fáceis de demonstrar que estamos indignados? Talvez sejam as duas coisas, muito provavelmente.
O Custo da Indignação
É fácil indignarmo-nos atrás de um ecrã, mas muito mais difícil é transformar essa indignação em presença. Isto não é dito para apontar o dedo a quem não participa, todos temos as nossas razões, do trabalho à família, da distância à sensação de que "não vale a pena". O problema é que, quando todos pensamos assim, uma causa que parece reunir milhares nas redes sociais pode encontrar apenas algumas centenas quando chega o momento de sair do mundo digital.
Talvez a Questão Não Seja o Futebol
Seria fácil concluir que as pessoas se preocupam mais com futebol do que com a terra, mas essa leitura é demasiado simples. O futebol também é identidade, memória, comunidade e pertença, e representa, para milhões de pessoas, emoções genuínas construídas ao longo de uma vida.
O problema talvez esteja noutro lugar: as causas sociais ainda não encontraram a mesma capacidade de criar pertença. Não basta dizer que uma questão é importante - é preciso fazer as pessoas sentirem que essa água, essa paisagem, essa montanha também lhes pertence, e que aquilo que hoje parece acontecer "aos outros" pode determinar onde os seus filhos e netos vão viver amanhã. Isso exige mais do que indignação: exige consciência, participação e, muitas vezes, presença física.
Conclusão: Afinal, Quantos Somos?
Talvez devêssemos fazer esta pergunta sem arrogância e sem julgamentos, não para medir quem ama mais a sua terra, mas para perceber uma coisa simples: quantas das pessoas que dizem estar preocupadas estão realmente dispostas a participar quando chega o momento decisivo? Uma comunidade não se mede apenas pelo número de pessoas que dizem amar a sua terra. Mede-se também pela capacidade que tem de a defender.
As redes sociais deram-nos uma voz poderosa, mas uma voz digital não substitui uma presença física. Podemos ser milhares atrás de um ecrã, mas a verdadeira dimensão da nossa mobilização revela-se quando é preciso sair de casa, caminhar, estar presentes.
Há momentos em que já não basta carregar num botão.
Nas redes sociais somos milhares. Na rua, somos quantos?
