Há publicações nas plataformas digitais que terminam assim que acabam de ser lidas, e há outras que continuam a ecoar fortemente nos comentários.
Uma nota recente do Município de Montalegre deu conta de uma entrevista da presidente da Câmara, Fátima Fernandes, ao Porto Canal, dedicada à evolução do território ao longo dos últimos 20 anos, às mudanças verificadas e aos desafios e oportunidades para o futuro. A publicação institucional destaca “duas décadas de transformação” e um “caminho percorrido”.
Contudo, pouco depois da partilha, começaram a surgir os comentários dos cidadãos: “Rua direita sem gente”, “É uma vila fantasma”, “Não se vê desenvolvimento nesta vila”, “Montalegre precisa menos de propaganda e mais de feitos” ou “É uma vila sem vida e sem ”.
Estas reações são opiniões, mas são também perceções muito reais de quem vive, viveu ou continua umbilicalmente ligado ao concelho. Embora não representem uma avaliação inteiramente técnica ou objetiva de tudo o que foi executado ao longo de duas décadas, seria igualmente precipitado ignorá-las. Quando comentários com este teor se repetem em diferentes espaços de discussão, vale a pena olhar para aquilo que está por detrás das palavras.
Entre o Discurso Oficial e Aquilo que a População Sente
Não é difícil encontrar investimento público, novos equipamentos, iniciativas culturais, promoção turística de relevo ou obras estruturais realizadas no concelho. Recentemente, por exemplo, foi inaugurado em Ferral um novo pavilhão multiusos, num investimento superior a 200 mil euros.
Portanto, afirmar de forma genérica que “nada foi feito” seria demasiado simplista. No entanto, o desenvolvimento em Montalegre não se deve medir apenas pelo número de obras inauguradas ou placas descerradas. O verdadeiro progresso afere-se por outros indicadores cruciais:
- A capacidade de uma terra manter e fixar os seus habitantes;
- A atratividade para novos residentes e fixação de jovens casais;
- A criação de atividade económica e emprego sustentável;
- A garantia de serviços públicos e a manutenção do comércio tradicional.
É precisamente nesta vertente que as críticas levantadas pelos comentadores nas redes sociais ganham legitimidade e merecem ser escutadas pelas autoridades.
Montalegre registava 9.261 habitantes nos Censos de 2021. A realidade demográfica dos territórios do interior é historicamente complexa e não pode ser imputada exclusivamente a uma gestão autárquica. O flagelo da emigração, a centralização de postos de trabalho nas grandes cidades e a redução drástica da natalidade ajudaram a esvaziar muitas localidades portuguesas.
Ainda assim, as perguntas legítimas permanecem por responder: o que está a ser feito para que alguém que nasce no Barroso queira continuar a viver aqui? E que incentivos reais existem para que quem saiu sinta vontade de voltar?
Uma Vila Cheia em Agosto que Camufla a Realidade do Inverno
Quem conhece profundamente estas terras sabe que há momentos em que a vivacidade do terreno parece contradizer os relatórios estatísticos. Quando chega o mês de agosto, regressam os emigrantes e os familiares de segunda geração.
As ruas ganham cor, os cafés e restaurantes enchem-se de dinamismo, as festas populares multiplicam-se e as aldeias parecem finalmente acordar de um longo sono.
No entanto, quando setembro chega, a realidade muda abruptamente.
Pouco a pouco, os carros com matrículas estrangeiras partem, as janelas das habitações fecham-se novamente e os cafés regressam à pacatez dos meses mais silenciosos. Os que permanecem voltam a ser os mesmos de sempre.
Fica demonstrado que é possível promover com sucesso o turismo, o património, a gastronomia e a natureza sem que isso resolva, por si só, o problema crónico da desertificação. Uma coisa é trazer visitantes temporários; outra, bem diferente, é fixar pessoas na comunidade.
O Tabuleiro Eleitoral e as Escolhas Coletivas
Existe ainda uma vertente política que raramente é ponderada nestas caixas de comentários.
Em outubro de 2025, os montalegrenses foram chamados às urnas nas eleições autárquicas. O PS obteve 54,8% dos votos para a Câmara Municipal, assegurando uma maioria absoluta com quatro dos sete mandatos. A coligação PSD/CDS-PP fixou-se nos 36,37% (três mandatos).
Isto significa que, apesar do forte descontentamento audível nas redes digitais, a maioria dos eleitores residentes optou por dar continuidade à liderança socialista.
Não se trata de uma crítica ao voto democrático, mas sim de uma realidade factual que tem de ser integrada no debate. Quando se critica repetidamente o rumo de um território, importa questionar: que escolhas coletivas nos trouxeram até ao panorama atual?
O Futuro Económico e a Sombra Mineira no Barroso
Montalegre enfrenta também decisões determinantes sobre o seu modelo de sustentabilidade. A exploração de recursos minerais converteu-se numa das matérias mais sensíveis e polarizadas de toda a região do Barroso. Estão em cima da mesa projetos de grande escala, como o Lítio do Barroso (promovido pela Savannah Resources nos concelhos de Boticas e Montalegre) e o projeto da mina do Romano (associado à Lusorecursos).
Neste ponto, o papel do cidadão não passa por escolher cegamente entre a empresa promotora ou os movimentos ambientalistas. O que se exige é informação técnica, dados transparentes, contraditório e uma avaliação séria dos benefícios económicos face aos riscos ecológicos.
O conceito de desenvolvimento em Montalegre não pode ser apenas uma palavra bonita numa entrevista televisiva; tem de se traduzir em qualidade de vida reconhecível por quem habita o território.
Uma estrada nova é mudança. Um pavilhão é mudança. Um cartaz cultural é mudança. Mas uma criança que nasce em Montalegre e consegue crescer, estudar, trabalhar e constituir a sua própria família na sua terra natal é a expressão máxima do verdadeiro desenvolvimento.
Mais do que alimentar disputas estéreis entre a narrativa oficial da autarquia e o descontentamento dos comentários, importa olhar de frente para as ruas e para os números. Ouvir quem ficou, compreender quem partiu e apoiar quem gostaria de regressar. Duas décadas depois, a pergunta impõe-se: que concelho queremos encontrar daqui a outros 20 anos?