Cartaz do 40.º Congresso de Medicina Popular em Vilar de Perdizes com fotografia do Padre Fontes de boina e cajado, destacando saberes ancestrais e identidade.
Padre António Fontes, o rosto e a alma do Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes que celebra quatro décadas em 2026

Vilar de Perdizes e uma tradição que resiste há 40 anos

Há tradições que sobrevivem porque são repetidas, mas há outras que sobrevivem porque continuam a ter algo para dizer.

Em Vilar de Perdizes, no concelho de Montalegre, uma dessas tradições chega este ano aos 40 anos de existência.

Entre 28 e 30 de agosto, o Congresso de Medicina Popular regressa à aldeia com um mote que parece simples, mas que carrega quatro décadas de memória: "Uma tradição de cura."

Mais do que assinalar uma edição comemorativa, o evento deste ano olha para a sua própria história e para a figura de quem esteve na sua origem: o padre António Fontes. Foi em 1983 que o sacerdote lançou esta iniciativa, procurando valorizar:

  • Os conhecimentos da medicina popular
  • O uso tradicional das plantas medicinais
  • Um conjunto de saberes ancestrais transmitidos durante gerações

O congresso tornou-se conhecido por algo que, na época, não era propriamente habitual: a aproximação entre o sagrado e o profano, e talvez seja este o grande segredo da sua longevidade.


Quarenta Anos Depois, a Tradição Mudou de Lugar, Mas Não Desapareceu

A edição de 2026 acontece num momento particularmente simbólico para Vilar de Perdizes. A antiga escola primária da aldeia está a ser transformada no futuro Centro de Estudos de Medicina Popular e Misticismo, um projeto que poderá vir a receber o congresso numa próxima edição.

Enquanto as obras decorrem, o evento adapta-se. Algumas iniciativas serão realizadas no Forno do Povo e na Casa do Lavrador, enquanto a feira ocupará um largo próximo. É uma mudança física, mas também uma imagem interessante daquilo que acontece com as tradições: adaptam-se aos tempos sem perder a identidade.


Não É Apenas Medicina Popular

Ao longo dos anos, o congresso tornou-se muito mais do que uma feira dedicada às plantas ou às práticas tradicionais. A edição dos 40 anos reúne:

  • Artesanato local e licores tradicionais
  • Chás e plantas medicinais do Barroso
  • Gastronomia regional e livros especializados
  • Exposições, oficinas, música e teatro

Aqui importa fazer uma distinção: falar de medicina popular é falar de saberes e práticas tradicionais, muitos deles ligados à cultura e às crenças das comunidades. Mesmo quando pertencem ao território da crença, continuam a ter um valor inestimável enquanto parte da memória cultural de um povo.


A Aldeia Como Parte do Congresso

Um dos momentos mais interessantes da programação acontece logo na sexta-feira, com a exibição do filme A Terra dos Últimos Homens, de Carlos Pires da Silveira. O documentário será seguido de um debate fundamental sobre a comunidade, o voluntariado, a tradição e o futuro das aldeias.

Num território onde muitas povoações enfrentam o despovoamento e o envelhecimento, discutir o futuro da comunidade é também discutir o futuro da própria memória.

No sábado, o Forno do Povo volta a assumir o protagonismo com um pequeno-almoço acompanhado pela confeção tradicional do pão, degustação de produtos da terra e animação musical. Seguem-se oficinas, exposições e sessões dedicadas à espiritualidade e ao bem-estar.


Quarenta Anos de Queimada em Vilar de Perdizes

Há um momento que dificilmente poderia faltar numa edição comemorativa: a queimada galega. A tradicional bebida preparada com aguardente, açúcar e casca de limão regressa ao congresso e celebra também a sua 40.ª edição.

Mais do que uma bebida, a queimada tornou-se um dos símbolos de Vilar de Perdizes. Está historicamente ligada a antigas crenças populares de proteção contra o mau-olhado e bruxarias. Este ano, o ritual será realizado com a participação de David Carvalho e da Filandorra – Teatro do Nordeste, recuperando a tradição associada ao próprio padre António Fontes.

No domingo, a gastronomia assume o protagonismo com a sessão "Cozinha barrosã: hábitos antigos para tempos modernos", acompanhada por momentos dedicados à cosmética natural.


Uma Tradição Também É Economia Local

Existe ainda uma dimensão que por vezes fica esquecida quando se fala de património: um evento desta natureza não vive apenas de memória. Durante estes dias, a presença de visitantes representa um forte balão de oxigénio para:

  • Produtores e artesãos locais

  • Cafés e restaurantes da região

  • Alojamentos locais e turismo rural

Por isso, preservar uma tradição cultural significa também manter viva uma parte importante da economia de uma aldeia de montanha.


Conclusão: E o Futuro da Tradição?

O que acontece a uma tradição quando aqueles que a criaram já não estão presentes? A resposta de Vilar de Perdizes parece estar na capacidade de transmitir. O congresso prepara-se para avançar com a candidatura a Património Cultural Imaterial de Portugal, estando a ser concluído o respetivo dossiê para a submissão final.

Se essa candidatura avançar, será mais um passo no reconhecimento de uma manifestação cultural única. Nenhum processo de reconhecimento consegue, por si só, manter uma tradição viva. São as pessoas que o fazem: os que organizam, os que participam, e os que têm vontade de perguntar às gerações seguintes se também querem saber.

Quarenta anos depois, Vilar de Perdizes não está apenas a celebrar o passado. Está a fazer uma pergunta sobre o futuro: o que queremos continuar a guardar quando já quase tudo à nossa volta mudou? Preservar uma tradição não é simplesmente impedir que ela desapareça. É, antes de tudo, encontrar uma razão para que continue a fazer sentido para a comunidade.


Horário Geral e Destaques

Sexta-feira, 28 de agosto:

  • 16h30: Tarde dos Stands e animação com os "Gaiteiros de Pitões".

  • 17h00: Visita às exposições (Plantas Medicinais e Escultura de Celestino Gomes André).

  • 17h30: Abertura oficial do congresso.

  • 18h30: Exibições, reportagens e debates sobre o futuro das aldeias e voluntariado. 

Sábado e Domingo (29 e 30 de agosto):

O programa inclui oficinas, palestras sobre saberes ancestrais e terapias naturais, demonstrações de cozinha barrosã, sessões de bem-estar e cosmética natural

Domingo (30 de agosto):

  • 18h00: Sessão de encerramento e conclusões com a presença do Padre António Fontes e convidados

Para mais detalhes sobre o programa consulte a página oficial da organização clicando aqui 



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