A reflexão da jornalista Tânia Laranjo sobre o Rossio, em Lisboa, levanta questões que vão muito além do turismo. Entre rendas, salários e comércio tradicional, importa perceber quem consegue acompanhar a transformação das nossas cidades.
Quem ganha e quem fica para trás?
A jornalista Tânia Laranjo tem acompanhado os protestos pela habitação em Lisboa e, no dia 19 de outubro, partilhou uma observação que merece atenção.
No Rossio, uma loja de artigos de luxo e outra de recordações podem estar lado a lado, mas enfrentam realidades comerciais muito diferentes. Ambas precisam de pagar renda. Como conseguem fazê-lo? E que espaço resta aos pequenos negócios quando os custos aumentam?
A questão estende-se à restauração. Porque são tantos os trabalhadores estrangeiros neste setor? Faltam portugueses disponíveis ou os salários e as condições oferecidas não são suficientemente atrativos?
Não há uma resposta única, nem é justo presumir que a nacionalidade determina o custo de um trabalhador. Mas há dados que merecem reflexão: em 2025, a remuneração bruta média mensal por posto de trabalho no alojamento e restauração foi de 1.145 euros, face aos 1.686 euros da média nacional, segundo dados do INE divulgados pelo Turismo de Portugal.
Entretanto, os centros urbanos transformam-se, o turismo ganha espaço e muitos estabelecimentos tradicionais enfrentam dificuldades para permanecer nos locais onde construíram a sua história.
O problema não é receber turistas, nem acolher quem procura trabalho em Portugal. É perceber se o desenvolvimento económico está a criar condições de vida dignas para todos.
Uma cidade não pode ser avaliada apenas pelo número de visitantes, pelas receitas que gera ou pela valorização dos imóveis. Também importa saber se os seus habitantes conseguem pagar uma casa, encontrar trabalho justamente remunerado e manter vivos os negócios que lhe dão identidade.
A reflexão de Tânia Laranjo deixa uma pergunta que merece respostas concretas: estamos a construir uma economia que serve a sociedade ou uma sociedade cada vez mais pressionada para servir a economia?
Talvez esteja na altura de exigir menos slogans e mais explicações.
